O peso da memória
No coração de Lisboa, alguns edifícios destacam-se pela sua presença marcante e beleza arquitetónica. O antigo Cinema Odeon ocupa um lugar especial na Avenida da Liberdade. É um marco da vida cultural da cidade e um testemunho raro da transição estética do início do século XX, onde a expressividade do espetáculo encontrou a elegância arquitetónica do Art Déco. Desde a fachada até aos detalhes interiores, o edifício foi concebido para ser vivido como uma experiência. Entrar no Odeon sempre significou atravessar um limite simbólico entre a cidade e o mundo do entretenimento.
O verdadeiro desafio não era apenas preservar essa herança, mas torná-la habitável e relevante para os dias de hoje.
Como intervir num espaço com identidade forte sem o transformar num exercício nostálgico ou num palco artificial?
O desafio — preservar sem cristalizar
Projetos com forte carga histórica enfrentam sempre uma tensão central: Como equilibrar memória e funcionalidade contemporânea sem que uma anule a outra?
No projeto Lisboa 161, o risco era evidente. A referência ao universo teatral podia facilmente resvalar para o decorativo excessivo. Por outro lado, uma abordagem demasiado neutra apagaria o carácter que tornava o espaço único.
A solução exigia leitura, contenção e intenção.
As referências ao edifício e à elegância pombalina não surgiram como gestos estéticos isolados, mas como ferramentas de interpretação do lugar. Funcionaram como âncoras culturais, capazes de orientar decisões sem as tornar literais. O objetivo não foi recriar o passado, mas traduzir a sua essência para uma linguagem contemporânea, onde o dramatismo é contido em vez de exuberante, a solenidade se afirma de forma subtil e a presença histórica permanece legível, sem ruído visual.
Assim como o design, o luxo não se vê, sente-se.
O caso do Odeon ilustra uma mudança clara na forma como o luxo é entendido em Lisboa: menos associado à ostentação e mais à autenticidade, à localização e à narrativa. Viver num edifício como este é participar numa história coletiva, reinterpretada para responder às exigências do presente.
A narrativa do projeto ganhou vida através de escolhas discretas e bem estudadas. A paleta cromática foi cuidadosamente definida para resistir ao teste do tempo, criando uma base serena a partir da qual se construiu todo o percurso; a iluminação, projetada em diálogo com o ritmo natural da luz solar, valoriza os relevos das texturas e do boiserie; o mobiliário, por sua vez, foi selecionado e projetado com base na linguagem Art Déco que o edifício naturalmente exigia, reinterpretada com um toque contemporâneo.
Os detalhes foram surgindo com a intenção de complementar o espaço, sem personagens principais. O objetivo de cada elemento é de servir o espaço e o quotidiano, não de se impor.
Aqui, o luxo não se afirma pelo excesso, mas pela precisão.
O resultado — viver dentro da história
O Odeon já não é um cinema, contudo, ainda possui uma arquitetura demasiado vincada para passar despercebida. A única resposta para este desafio era que a sua herança permanecesse legível sem condicionar o ritmo de quem o habita. O passado está presente, mas não pesa.
O interior adapta-se à rotina diária, à luz natural e à necessidade de conforto de um lar. Respeitar a história não significa congelá-la, mas sim permitir que continue a evoluir.
Uma lição sobre reabilitação de um espaço com história
O projeto Lisboa 161 demonstra que a reabilitação de edifícios requer, além da sensibilidade estética, uma leitura cultural rigorosa e capacidade de mediação entre tempos distintos.
O design de interiores deve conversar com a história do espaço. E é nesse diálogo silencioso que surgem os espaços verdadeiramente intemporais.
Descubra outros projetos onde o passado é reinterpretado com rigor e contemporaneidade. Explore o portefólio da Liv’in e acompanhe as histórias por detrás de cada espaço.

